Conversa de pescador
Seu Felipe, seus contos, causos e lendas da beira do Rio Cuiabá

Felipe Santiago de Campos, de 79 anos, é o mais antigo pescador da comunidade ribeirinha Passagem da Conceição, uma pequena vila, distrito de Várzea Grande, mas que por muito tempo foi distrito de Cuiabá. Começou a pescar ainda criança na companhia do pai, em seus longos anos de experiência com a pesca já presenciou acontecimentos que como ele mesmo diz " contando ninguém acredita". Ao longo de sua vida como pescador, Felipe, se deparou com diversos personagens do folclore matogrossense, como o temido Minhocão do Pari e o serelepe Negrinho d'água, figuras que permeiam o imaginário de diversas gerações e fizeram parte da vida desse pescador, tão carismático e cheio de histórias que ganhou um prato com seu nome em um dos restaurantes da região: "Pacu assado, a moda Felipe". Seus contos são como o refrão da música que virou um hino em Mato Grosso: "Tempo bom, que não voltam mais, só na lembrança de quem foi menino, hoje é rapaz".
Como era ser pescador naquele tempo?
Felipe: Nós saiamos de madrugada, umas duas, três horas, eu pescava com meu pai, depois de muito tempo é que eu comecei a pescar sozinho.
Nesse tempo em que o senhor pescava, viu algumas das criaturas conhecidas no folclore?
Felipe: Naquele tempo existiam muitas lendas no rio, tinha o Negrinho d'água, comentários de Minhocão.
Existia alguma época do ano em que o Negrinho d'água e o Minhocão apareciam mais?
Felipe: Eles apareciam mais na época das águas, quando o rio estava cheio. Mas nessa época nos pescávamos mais de dia e quando íamos lá para cima na cabeceira pescar éramos um grupo com vários pescadores, de dez a doze canoas.
Onde eles apareciam?
Felipe: Eles apareciam aqui na barca, uma barca que tinha bem aí ( sinaliza na direção do rio). Aparecia mesmo só por aparecer, ele (o Negrinho d'água) subia e ia até aí no portão de finada Luzia. Nos saímos atrás dele para tentar pegá-lo, íamos até a água, mas não conseguíamos. Era um homem desse tamanho (faz sinal com a mão, da altura de uma criança de uns sete anos) "pretinho". Ele não mexia com nada. Nos que mexíamos com ele, porque ele vinha subir aí no porto, para fazer graça.
E o Minhocão do Pari, o senhor já ficou perto dele alguma vez?
Felipe: Não, só vi o rebuliço dele. Ele era cumprido, como daqui lá (mostra uma distância de aproximadamente cinco metros), preto. Ele só fervia no poço, quando nós passamos estava uma "barcada" de folha podre, nos "imbicávamos" a canoa, voltávamos para trás e "vazava" para a beira do barranco. Quando eu descia de canoa com meu pai, e nos víamos um bicho feio era ali no Barrancão, quando ele apearia na flor d'água, era um barulhão. Quando nos ouvíamos, colocávamos a canoa bem para a beiradinha do barranco e íamos embora, a gente queria ver o que era aquilo na água "voando", mas não víamos nada. Vou falar para você, já passamos medo com esse negócio.
A Iara, o senhor já viu?
Felipe: Não, nunca vi, eu ouvia falar que ali no poço das pedras é que tinha uma. Uma moça que aparecia sentada em uma pedra penteando o cabelo. As lavadeiras que falavam, que ela ficava lá nas pedras passando pente pelo cabelo e eles olhando lá da pedra. Quando foi um dia desses, desceu um menino, até era irmão de finado Mané Lamancio, esse que era barbeiro, desceu lá nas pedras para pegar goiaba, subiu na goiabeira e quando olhou lá para o poço, estava uma moça sentada na pedra, quando viu ele, ela começou a acenar. Ele desceu de cima da goiabeira e "fincou de carreira! ". Quando chegou em casa e foi falar para a mãe dele, não tinha mais voz, não conseguia falar o que tinha visto, morreu sem falar!
O senhor ouvia muitas histórias do seu pai?
Felipe: Nesse tempo criança não escutava as conversas dos mais velhos, mas eu ficava sentado de lado ouvindo a conversa deles. Certa vez dois pescadores estavam no rio e jogaram a rede, a rede enganchou em um lugar onde não havia nada que pudesse enganchar a linha, o mais novo pulou para desenganchar e não subiu mais. O Bicho pegou ele e levou rio acima, depois de um tempo outro grupo de pescadores ouviu a voz do menino dizendo "eu já vou" e então encontraram o corpo perto do barranco com um sinal no meio da testa, encontraram o corpo para cima de onde ele tinha sumido, esses eu não conheci eram os mais velhos que contavam.
Meu pai pescava lá pelas bandas de Tarumã era lugar perigoso, a gente conta você não vai acreditar. Lá você enfia a isca pelo rabo do peixe e quando a isca treme no anzol você puxa de volta e o peixe está enfiado pelo meio da cabeça, isso já aconteceu com a gente diversa vezes, enfiava as iscas e tudo era tirado do rabo e enfiado no meio da cabeça. (Risos) lá era terrível. Quando checava lá e soltava o anzol começava a ferver a água, você podia recolher o anzol e voltar. Era o bicho que não queria que pescasse lá, ele revirava tudo depois que a gente saia , quando chegávamos na cabeceira era só folha podre que descia o rio, de uns tempos para cá acabou, tomam até banho lá, pintam o sete, não sei o que aconteceu, se mudou para onde é que foi. Se as pessoas vissem como era nem teriam coragem de descer no rio, era feio o negócio. Nesse rio, a gente conta cada história que o pessoal fala assim: Felipe é mentiroso.
O senhor já mergulhou nesses lugares?
Felipe: Lá no Tarumã eu não mergulhei, mas ali na pedra grande eu mergulhei, era fundo, muito fundo, eu nunca havia mergulhado em um lugar fundo como lá. Pulei na água para tirar a rede, a rede é pesada e me levou lá para o fundo, eu estava segurando no capitão (um material usado nas pescarias), passei por uma água preta, por uma água branca, e depois mais duas de cores diferentes e aí que fui ver que uma pedrinha estava segurando a corda e impedindo os Peixes de passarem, quando eu levantei a rede, os peixes passaram pelo vão da minha perna, por debaixo do meu sovaco, era peixe para todos os lados.


